4a Residência – Frente 3 de Fevereiro

Se inicia a 4a residência com o coletivo Frente 3 de Fevereiro e seus colaboradores Marisa Flórido Cesar, Clara Passaro e Paola Berenstein Jacques!!!

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Muitos fogos.
Uns de artifício, outros de verdade.
Queimaram o mato todinho.
Em vez de verde, agora é preto.
Uma pipa voa bem alto e, depois que avisto a primeira, já são dezenas dançando no céu.
Hoje é dia de festa.
Bolinho de bacalhau em muitas casas.
As famílias trabalham e celebram ao mesmo tempo.
Voltei ao corredor encantado e reencontrei os amigos.
Até o de quatro aprendeu a escrever “afeto” com pauzinhos de madeira.
Os sofás e a cortina novos chegaram.
A sala se ilumina das tonalidades recentes.
Um lugar é inaugurado.
As crianças ajudam a limpar mas sem querer molham a flanela.
A chave esquecida no portão dá entrada a outros menos presentes.
Hoje é dia de festa.
Roupas são estreadas.
A geladeira de um guarda a cerveja do outro.
Eu trouxe pudim.
Latinha, latinha. É a hora do gato comer.
Vai e vem, entra e sai.
Sandálias novas.
Feliz da vidá.

Dezembro no Minhocão (III) / Luiza Baldan

Hoje me disseram que faço família em todo lugar.
No início da residência artística eu não podia imaginar que isto de fato aconteceria.
Sentir-se acolhido não necessariamente significa ter afinidade.
Hoje deixei a casa que me devolveu um tanto de coisa que havia perdido por aí.
Tive que sair e abraçar e chorar e doer.
Tive que prometer para mim mesma que aquele amor inventado em tão pouco tempo não cessaria naquela partida.
Volto para o Natal.
Volto para aquele corredor que foi tão casa quanto a minha casa.
Volto para o calor das histórias embaladas a risos e gritos.
Ontem vi um álbum de fotografias antigas. Ri das caretas das crianças, que hoje são adultos. Vi a semelhança genética das pessoas e a permanência grifada daquele cobogó, daquele corredor.
Agora eu estou sem casa, mas de volta a um cômodo fechado, sem comunicação externa além do barulho da rua movimentada e urbana do bairro de Botafogo.
De volta a braços confortáveis que estavam adormecidos aqui.
Fecho o olho e um rostinho de criança vem na lembrança. Sorrio.
Eles ficaram de me ligar para saber se eu tinha chegado bem.
Difícil responder a uma pergunta dessas num momento em que conquisto tanto, me emociono tanto, mas deixo algo muito potente para trás.
Não existe mágica que faça com que aqueles dias se prolonguem.
As fotografias que eu fiz servirão de álbum para alguma outra conversa daqui a 20 anos. Servirão de mapa para me levar de volta àquele lugar e adoçar a memória. Toda bala Juquinha me levará ao esconderijo, ao pote verde em forma de maçã, onde reencontrarei aquela felicidade.

Aproveito para agradecer a este projeto e aos moradores do Conjunto Prefeito Mendes de Moraes por esta maravilhosa experiência de vida.

Feliz Natal para todos nós.

na fábrica de brinquedos pedagógicos

Fábrica da família Laguna, Made in Casa, na Mangueira.

Manhã na marcenaria.

Máscaras de presente de Natal.

Isabel, Yasmin, Didi, Marcelly, Duda, Jullyane e Marina.

Participação especialíssima de Carolina Marsiaj, Laura Laguna, Marquito e Daniel (Chiq da Silva).

Rio de Janeiro, 16/12/2009

Dezembro no Minhocão (II) / Luiza Baldan

Faz muito calor e muita preguiça.

O ventilador toca uma musiquinha que dá sono. Ventinho quente, abafado, de tarde morta. Nem café dá jeito.

Chego na janela para ver a paisagem de longe, mas o sol da tarde castiga.

Dou a volta para a outra vista e o pessoal lá embaixo está queimando cobre.

Mais calor, mais fumaça.

As crianças não sentem nada disso e brincam eufóricas na beira da laje.

Os mais sortudos foram para a piscina de algum parente.

Espero alguém bater na porta, mas me lembro de que já está aberta. É só entrar.

A buzina do padeiro toca alto, a manicure trabalha no corredor.

A cachorra Madona dorme feliz de barriga na cerâmica fria.

O perfume do recém-banhado invade a sala.

Vai chover. As nuvens se aproximam.

O quarto é rosa.

Ao abrir a porta de manhã vejo um corredor iluminado de verde e amarelo, com rasgos de sol pelo chão, pelas portas, pelos livros na estante.

A penumbra matinal é filtrada por cortinas e toalhas, aquecendo os objetos com uma luz fraquinha.

O Snoopy de porcelana recebe um facho especial, quase um holofote.

À noite o vão da escada é lilás, cintilando pequenos quadrinhos na parede.

no corredor / sabrina e zeus