Texto para o catálogo do IPHAN

Beatriz Lemos e Cristina Ribas

No apartamento 613 do edifício serpenteado sobre o Morro do Pedregulho misturam-se agora pistas de habitações temporárias. Ao longo de cinco meses a residência da senhora Leda, que ali vivera por 46 anos, recebeu inúmeros moradores e visitantes. Entre eles artistas, vizinhos, arquitetos, interessados, críticos de arte, passantes, turistas, urbanistas… Ao redor da mesa da sala, que no percurso dos dias se convertia de sítio do café da manhã em escritório de trabalho, escrivaninha de diários, território de reuniões movidas a jantares “amarelos”, irradiavam encontros daqueles que se debruçavam sobre um (novo) projeto comum: tomar conhecimento das condições de aparecimento de formas geométricas nitidamente modernistas, impulsionadas pelo desejo de criar um modelo ideal do habitar.

Assim, então, provava-se também o escalar dos degraus amadeirados para o andar de cima do duplex, os sutis ângulos diagonais e as ortogonais forjadas, a pequena cozinha e sua janela para “fora” do apartamento. E o corredor que, com um banco coletivo transformado em elemento conectivo com moradores vizinhos, ousava ter circulação diferente da que lhe fora designada. Dali era difícil distanciar-se. O conforto também emergia, mesmo para aqueles recém chegados. [1]

São 272 apartamentos no edifício curvilíneo, a unidade habitacional que, no seu conjunto, diferentemente da grande maioria das casas dos projetos de habitação social no Brasil, caracteriza a paisagem de Benfica e São Cristóvão na cidade do Rio de Janeiro há cerca de sessenta anos. O apartamento que alugamos por cerca de cinco meses era apenas um, mas o elemento essencial a promover tempo e espaço dilatados, de observação, estabilidade, confronto e possível pertencimento a este lugar… Real ou imaginário… Ao conceber o projeto não tínhamos dúvida da necessidade de celebrar anos depois e reanimar, num momento crucial (em 2009 comemoraram-se 100 anos do nascimento de seu arquiteto), o feito hoje monumentalizado sobre o morro… As dúvidas vieram em seguida: como elevar ao teor de sensação, pensamento, análise crítica a elaboração de um patrimônio? [2] Parecia interessante friccionar as vontades de proposições deste Edital ao fazer da moradia o tempo intensivo de uma concatenação: arte e patrimônio.

A ideia de realizar o projeto, cuja ação central foi convidar artistas para residirem no Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Moraes concebido por Affonso Eduardo Reidy, surgiu de um cruzamento de experiências, pesquisas e observações. Vida e obra de Carmen Portinho, engenheira responsável pelo projeto e companheira de Reidy, foi tema de uma das pesquisas. Carmem deve ser considerada uma das grandes personalidades da história recente brasileira. Ativista feminista em meados do anos 20, foi uma das primeiras engenheiras e a primeira urbanista mulher do país. Criou em 1932 a Revista Municipal de Engenharia, que promoveria experimentos em arquitetura moderna, e também o Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal, onde trabalharia posteriormente Reidy, por doze anos. [3]

Pelo estudo dessa história de protagonismos, que vão aliar o poder de governo à ousadia e à vanguarda, pensamos que o projeto de residência artística seria também uma homenagem a ela. Junto com Reidy, Carmem foi responsável por alavancar politicamente projetos que se tornaram marcos de nossa arquitetura moderna. Entre eles o próprio Pedregulho e o “Minhocão da Gávea”, assim como o Museu de Arte Moderna (MAM) – cada um hoje resultado de um percurso histórico distinto. Juntos, Reidy e Portinho se dedicaram a realizações intensas, revolucionando o pensamento para a habitação popular no Brasil, mesmo que se possa embarcar em uma análise crítica aos modos de acontecimento do socialismo ou comunismo premente a estas ações [4] e contrabalançar as exíguas mudanças efetivas no âmbito das políticas de Estado sobre habitação de interesse social. O Pedregulho compreendia um plano complexo formado, além da unidade habitacional feita funcional e educacional, também por escola, ginásio, piscina, posto de saúde, lavanderia, cooperativa e mercado direcionados a um habitar comum e, portanto, “simplificado” pelas leis de uma vida moderna. Hoje chamado “Minhocão” pelos moradores locais e por seus vizinhos, foi a grande obra realizada pelo casal, construída entre os anos 1947 e 1958, e dedicada então à residência de funcionários da Prefeitura do Distrito Federal do Estado da Guanabara, imediatamente antes da guinada pontual que marcaria a cruz inicial de Brasília. Em menor escala, mas não tão diferente deste, o projeto do Pedregulho seria reconhecido em todo o mundo, disseminado através dos CIAMs (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), e renderia a Reidy prêmios de arquitetura [5] e elogios por parte daqueles que o inspiraram, como Le Corbusier e Max Bill.

A vontade de “experimentar” esse prédio tão grandioso em suas formas, e de curso histórico e político que deve ser revisto com urgência, somou-se a nossas trajetórias no campo das artes visuais , assim como à promoção de intercâmbios entre cenas de arte e agentes, investigações sobre memória e formação de arquivos, redes sociais e políticas públicas. A tentativa de compreender, mapear e problematizar arte e sociedade no Brasil e na América Latina tornou-se então via comum para formar as equipes que participaram da residência no Pedregulho. Artistas, arquitetos e urbanistas e teóricos da arte foram agrupados em quatro pequenas equipes de trabalho para atuarem diretamente no Conjunto Habitacional, por cerca de um mês. Estudar, refletir criticamente e agir formariam o tecido das colaborações até então inéditas, descobertas na maneira livre com que cada equipe compreendeu e tencionou as possibilidades de “colaboração”. As equipes mistas tiveram um desafio principal: conciliar saberes e práticas distintas, sendo uma metodologia de natureza mista, de antemão, o maquinário de alguns convidados. A ideia, desta forma, era provocar atravessamentos entre, por exemplo, um olhar sabido das estruturas e facilitações funcionais e outro atento à imaginação de uma vida comum, encontro provocador de um crispamento poético da sociabilidade, mesmo que cobogós, azulejos e esquadrias se esfacelassem a olhos nus.

Partindo da premissa de que este Conjunto Habitacional consiste em um baú de utopias, sonhos e ideologias tão instigantes quanto desafiadoras para qualquer um que se debruce sobre seus conceitos, sua história e sua atualidade, pensamos a realização do projeto com a presença dos colaboradores como orientação teórica para os artistas e como produtor de diferentes leituras para as ações realizadas. Ao passo que os arquitetos participaram das residências como agentes na mediação entre o artista, a comunidade e a arquitetura, e também fazendo uso de suas experiências radicais na área, os críticos de arte se aprofundaram nas produções dos artistas com os quais foram convidados a colaborar.

Os artistas Jarbas Lopes, Katerina Dimitrova, Luiza Baldan e os coletivos Kaza Vazia e Frente 3 de Fevereiro trilham caminhos de pesquisas bastante diferenciados entre si, e assim se especializaram as residências. Como introdução do projeto ao edifício bloco A, o “Minhocão” propriamente dito, Jarbas e Katerina optaram por investir nas relações de vizinhança, iniciando campanhas como a de separação para reciclagem de lixo e a de uma biblioteca pública para o prédio, que contou com adesão e doação de artistas e instituições de arte. O casal fez de sua passagem pelo Pedregulho a matéria-prima para as muitas conversas ocorridas no apartamento 613 com o crítico de arte Felipe Scovino acerca da potência das trocas subjetivas no campo da arte e de como estas atuam na elaboração de novos mundos. Junto com o arquiteto Wellington Cançado esboçaram um mapa ideal comum para o futuro no Conjunto Habitacional, em que desejos plantados por “sementes” de ideias já se experimentavam como realidade.

O coletivo Kaza Vazia dedicou-se a desenvolver atividades e oficinas para crianças e adolescentes, encontros de conversas no interior do apartamento e a inauguração do “Komplexo Kultural”, nossa base de atividades na área de uso comum do Conjunto (vão livre dos pilotis). Seus colaboradores Luiz Guilherme Vergara e Markito Fonseca integraram as atividades, convidando mais participantes e instaurando mesas amplas de conversa. Markito convidou colegas arquitetos, urbanistas e profissionais da área da saúde, que atuam em instituições localizadas próximas ao bairro de São Cristóvão, para ajudarem na orientação do coletivo em suas atividades com a comunidade e o prédio. A tentativa de iniciar uma horta comunitária foi uma dessas atividades, que contou com a colaboração da Fundação Osvaldo Cruz. Já Luiz Guilherme, além de organizar mesa de debates na área de lazer do Conjunto, em parceria com a Universidade Federal Fluminense, instigou o trabalho dos kazeiros a partir do incentivo a perseguir ideais de sonhos e utopias. Sua defesa  de uma arqueologia da esperança e da arte como território de processos e afetos, transmitida aos jovens artistas mineiros, foi essencial para delinear ações e ocupações do coletivo durante sua ativa residência.

Luiza Baldan, munida de câmeras fotográficas, mudou-se para o conjunto com o intuito de produzir fotografias com os moradores. Crianças e adultos participaram das atividades que foram uma introdução à prática da fotografia “à moda antiga”, para o que deveriam escolher seus lugares de afeto e produzir “retratos”. Esses lugares foram, para Luiza, parte da descoberta do Pedregulho por meio de outras conjunturas de mapas, e subsídio para intercâmbio com o pesquisador e historiador Maurício Lissovsky envolvendo sensibilidades críticas, madeleines e uma permeabilidade de pertencimento àquele conjugado de modernismos. O coletivo de arquitetos Chiq da Silva, por sua vez, mapeou os deslocamentos no edifício, promovendo um estudo da apropriação desses moradores e observando, sobretudo, a compartimentação da “rua interna”, antes via de circulação no edifício.

A liberdade de circulação, a compreensão dos códigos sociais e uma investigação do que o grupo chama de “democracia racial” conduziram o projeto do coletivo Frente 3 de Fevereiro, acompanhado de perto por Clara Passaro (que residiu com os artistas) e Marisa Flórido. As ações do grupo,pensando o Pedregulho como projeto de vida comum no exercício de uma sociabilidade confinada, extrapolaram os pilotis da edificação para apontar contradições pouco assinaladas na “cidade oficial”, como o muramento da favela Santa Marta. A imaginação de uma grade de segurança no próprio conjunto ativou entrevistas com os moradores e abriu conversas profícuas e infinitas com Marisa, sobre uma humanidade imaginada, nada distante de uma articulação sempre utópica e sempre conflituosa entre homens e mulheres desideais, dotados de corpos criativos e mais ou menos controlados por estratégias de poder.

No vão livre resistente, arquitetura indelével, uma imagem de liberdade necessariamente se projeta. Ali, ao menos, não há murada possível. Porém, o que se vê à frente é uma cidade cheia de futuros, da qual o Pedregulho não se desliga nunca e a qual é desafiada assim como ele pelos desejos da humanidade num piscar de olhos atual e imaginada. O que se chama Pedregulho é uma complexidade de detritos e afetos no tempo, casa comum de um tempo generoso de futuro, que deve ser desenhado sem esquecer a persistência, a radicalidade e a ousadia que o instauraram.

NOTAS

[1] “Conforto” foi citação comum nos depoimentos de habitantes do Pedregulho, palavra mais recorrente quando aliada à moradia, surgida nas entrevistas que Helga Santos da Silva, arquiteta e professora, realizou como parte de sua pesquisa de mestrado e atualmente doutorado na UFRJ, Rio de Janeiro. Mais informações em http://www.cipedya.com/web/FileDownload.aspx?IDFile=162556.

[2] Monumentalização e patrimonialização são palavras cujo “valor” tem crescido atualmente. Além de procurarem dar conta da preservação cultural e estrutural, elas podem ser invocadas na valorização das cidades contemporâneas transformadas em mercadorias e competitivas entre si, fenômeno alardeado por críticos do urbanismo contemporâneo. Como dado da situação atual do Pedregulho, nos parece essencial afirmar que o Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Moraes é tombado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O tombamento, contudo, não é suficiente para impulsionar a manutenção necessária para que o conjunto não se deteriore. Atualmente foi retomado um projeto de restauro, que será licitado.

[3] Sugerimos a leitura de: BONDUKI, Nabil. (org. e textos) e PORTINHO, Carmem (textos). Affonso Eduardo Reidy. Lisboa: Editora Blau, 2000; e PORTINHO, Carmem. Por toda a minha vida: depoimento a Geraldo Edson de Andrade. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

[4] É interessante observar críticas ao projeto de Brasília, por exemplo, atualizando-as no projeto do Pedregulho. Paulo Bicca traz o conceito de Marx e Engels de uma “burguesia socialista” cujo falso socialismo na verdade promoveria a segregação social, reificando a autoridade do arquiteto, do governante, do “diretor da fábrica” e deixando aos operários a execução de um projeto no qual não poderiam interferir. Ver BICCA, Paulo. Brasília: mitos e realidades. Em Brasília em questão. São Paulo: Editora Projeto, 1985. p.129-130 

[5] Em 1951 Reidy recebe prêmio da Bienal de Arte de São Paulo pelo projeto do Pedregulho.

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