Hoje me disseram que faço família em todo lugar.
No início da residência artística eu não podia imaginar que isto de fato aconteceria.
Sentir-se acolhido não necessariamente significa ter afinidade.
Hoje deixei a casa que me devolveu um tanto de coisa que havia perdido por aí.
Tive que sair e abraçar e chorar e doer.
Tive que prometer para mim mesma que aquele amor inventado em tão pouco tempo não cessaria naquela partida.
Volto para o Natal.
Volto para aquele corredor que foi tão casa quanto a minha casa.
Volto para o calor das histórias embaladas a risos e gritos.
Ontem vi um álbum de fotografias antigas. Ri das caretas das crianças, que hoje são adultos. Vi a semelhança genética das pessoas e a permanência grifada daquele cobogó, daquele corredor.
Agora eu estou sem casa, mas de volta a um cômodo fechado, sem comunicação externa além do barulho da rua movimentada e urbana do bairro de Botafogo.
De volta a braços confortáveis que estavam adormecidos aqui.
Fecho o olho e um rostinho de criança vem na lembrança. Sorrio.
Eles ficaram de me ligar para saber se eu tinha chegado bem.
Difícil responder a uma pergunta dessas num momento em que conquisto tanto, me emociono tanto, mas deixo algo muito potente para trás.
Não existe mágica que faça com que aqueles dias se prolonguem.
As fotografias que eu fiz servirão de álbum para alguma outra conversa daqui a 20 anos. Servirão de mapa para me levar de volta àquele lugar e adoçar a memória. Toda bala Juquinha me levará ao esconderijo, ao pote verde em forma de maçã, onde reencontrarei aquela felicidade.

Aproveito para agradecer a este projeto e aos moradores do Conjunto Prefeito Mendes de Moraes por esta maravilhosa experiência de vida.

Feliz Natal para todos nós.

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